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"POR QUE TÃO 'MILITARIZADO'?"

Recentemente, uma das Entidade dirigentes de nossa casa, o Caboclo Beira-mar, pediu que fossem colocadas em nossa cabeceira duas bandeiras – a do Brasil e a do estado do RJ. E a colocação deveria seguir um certo protocolo simples, mas bastante simbólico: um pouco antes do início da gira mensal de abril, com o terreiro já formado, haveria a execução do hino nacional e a entrada das bandeiras. Tal pedido chamou a atenção de um médium da casa que nos indagou um tanto curioso: “mas por que tão ‘militarizado’?”.


Em verdade, é preciso fazermos uma pequena ressalva aqui: o pedido e o protocolo sugerido são muito mais cívicos, patrióticos, do que militares em si. Hino e bandeira são símbolos que denotam a união e a soberania do um povo. Representam “pertencimento”. E devem nos inspirar orgulho – no bom sentido dessa palavra: nos fazer sentir honrados e felizes com a terra que nos criou e que nós ajudamos a criar a cada dia.

Mas, independentemente do fato que originou a questão, ela ainda é válida pois é inegável a similaridade que nossa Escola como um todo guarda com parte das convicções militares: ela é reconhecida pela DISCIPLINA; pelo uso de um uniforme – uma roupa igual, com uma “uma só forma” –; pela padronização dos ritos; pela adoção de uma hierarquia, que define a função de cada médium no terreiro e organiza a formação e todo o desenrolar dos trabalhos; pela presença das insígnias que representam essa hierarquia; e pelo fato de termos nossa própria bandeira e hino, o qual diz que “somos soldados de Oxalá”.


Para respondermos a essa pergunta precisamos lembrar que o intuito do Caboclo Mirim ao apresentar a sua Escola da Vida no formato que apresentou era o de consolidar, aos olhos de toda sociedade, a separação entre a verdadeira Umbanda – baseada na caridade e voltada unicamente para o bem – e as práticas mediúnicas distorcidas, exercidas por charlatões e médiuns de moral duvidosa, que visam dinheiro e poder – chamadas, então, genericamente de “macumbas”. Separação essa que já havia sido iniciada anteriormente pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas ao “fundar oficialmente” nossa religião em 1908.


Com essa lembrança em mente, pode-se inferir que a similaridade que se percebe entre nossas práticas e parte das ideias militares não é fruto do acaso, mas sim uma estratégia deliberadamente adotada pelo Caboclo Mirim para conseguir realizar seu intuito.


Enquanto nas “macumbas” transparecia a falta de padrões, a confusão de conceitos, a indisciplina e a adoção de ritos “menos civilizados”, na Escola da Vida cada detalhe fora pensado para destacar a necessidade – e a prática! – da disciplina, da regra, da retidão e da civilidade. Era o plano material (visível) espelhando o plano espiritual (invisível), essência do culto, que se prega na Escola.


Assim, a adoção de uma postura mais “militarizada” e “urbana” teve papel importante para a aceitação da Umbanda como uma religião legítima, totalmente distinta das “macumbas”, uma vez que essa postura encontrava eco no ambiente político-social que vivíamos na época da fundação da Escola: início da década de 20.


Vivia-se então o final do período que ficou conhecido na história do nosso país como “República velha”. Um momento de grande agitação no Brasil e no mundo, no qual ocorreram vários movimentos políticos, sociais e econômicos revolucionários que foram, ao mesmo tempo, reflexo e estopim de várias mudanças na ordem político-econômico-social de nossa nação. Entre esses acontecimentos houve o aumento da nossa industrialização (devido aos problemas gerados pela primeira guerra mundial) e o crescimento das populações das cidades e várias revoltas contra o contra o governo – sendo uma das mais importantes a que ficou conhecida pelo nome “tenentismo”, por ter tido forte participação de militares, especialmente de jovens oficiais do Exército.


Ainda nessa época, também em virtude da influência da primeira grande guerra, houve uma “busca” pelas raízes brasileiras. Os pensadores brasileiros voltaram seus olhos – e ouvidos e mentes! – para as coisas do Brasil e passaram a valorizar nossas manifestações culturais, nossas raízes. O que antes era visto como atrasado e chamado de “não cultural”, como a mistura de raças, a influência dos índios e dos negros em nosso modo de ser, passa então a ser tido como algo elevado e digno.


Foi nesse cenário que o Caboclo Mirim apresentou e desenvolveu os fundamentos de nossa Escola: uma religião nacional, que enaltecia nossas raízes e que era alinhada com o que havia de melhor na postura militar: o uso da ordem e disciplina em favor do desenvolvimento moral de seus membros. Eis o porquê de sermos tão “militarizados”: precisamos de disciplina e organização para evoluir vencendo nossas batalhas e esses elementos estão historicamente associados às ideias militares.


Como se isso não fosse o suficiente, as bandeiras serão hasteadas no dia 23 de abril, dia de São Jorge, o santo soldado, militar, sincretizado na Umbanda com Orixá Ogum, o senhor da guerra, do ferro com que se faz as armas e as ferramentas, cujo uso impulsiona o desenvolvimento. O arquétipo, o símbolo daquele que luta, que guerreia e que vence. Senhor das demandas. A força que impulsiona ao desenvolvimento de tudo e de todos!


É por isso que nós, “soldados de Oxalá”, pedimos que a força do grande General de Umbanda guie os caminhos de nosso estado, de nossa pátria, de nosso globo! E que seu Ogum nos ajude a vencer nossas batalhas hoje e sempre!


Saravá, Ogum! Ogunhê!

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