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Estava eu ali parado. Atrás de mim, numa fila, pilhas e pilhas de dias se amontoavam: cada pilha um ano que vivi. Na mais próxima, todos os dias desse último ano se enfileiravam.


No horizonte, à minha frente, apenas uma luz amena brilhava. E acima de mim, como se flutuasse, um grande relógio marcava o tempo: tic, tac, tic, tac... ainda perdido nos movimentos dos ponteiros, inebriado pelo passar dos minutos, senti que alguém tocou de leve na minha mão.


E minha atenção se voltou para um sorriso lindo que se espalhava em tudo à nossa volta. Era uma Criança, que me abraçou pela cintura e cuja paz de seus olhos fechados ao me abraçar inundou o mundo.


Seu sorriso era como uma língua que falava direto ao meu coração e que eu entendia completamente sem saber como ou porquê. E por isso, eu chorei... Ele tornou a pegar minha mão e apontou para frente, como se quisesse me mostrar algo. Não estávamos mais a sós. A luz amena que brilhava no horizonte agora banhava um grupo de pessoas, uma ao lado da outra, paradas a poucos passos de nós. Suas silhuetas, delineadas pela luz do horizonte, estranhamente se faziam mais forte porque seus corpos também emanavam uma áurea luminosa, cada uma de uma cor.

Diante de minha perplexidade, a Criança apertou minha mão e, com seu jeito arteiro, piscou para mim como se soubesse algo que eu não sabia - ah! E como ele sabia!...


Sem nunca parar de sorrir, o pequeno estendeu o braço convidando o primeiro da fila a se aproximar. Era um homem de terno e chapéu pretos.


Ele veio também sorrindo, tocou de leve a aba do chapéu numa saudação, me deu "boa noite" e estendeu a mão como se me pedisse algo. Frente à minha confusão, sorriu e fez surgir da palma de sua mão um punhal como que feito de fogo. "Toma. Para você lembrar que você não anda por aí desprotegido...", disse ele me oferecendo o objeto incandescente. Hesitei. A Criança me olhou como quem dizia "confie" e me levou a pegar o punhal. Ainda meio incrédulo, estiquei a mão para pegar o inusitado presente e, no mesmo instante que toquei-o, o sorriso do homem de chapéu se fez uma gargalhada e foi como se o punhal houvesse explodido e uma energia diferente cobriu meu corpo e aguçou meus sentidos. Ainda atônito, vi o homem tocar novamente a aba de seu chapéu num leve aceno, sorrir e voltar para seu lugar na fila, que agora eu podia perceber melhor.


O segundo a vir usava uma armadura que emanava uma luz vermelha intensa. E, sem nada dizer, me estendeu uma espada, que, da mesma forma que o punhal, ao meu mais leve toque, se desfez e somou sua energia à minha. "Para que, no novo tempo, você se lembre que a vitória só vem para quem desembainha sua espada e luta...", me disse o guerreiro antes de retornar ao seu lugar.


Na sequência, um índio veio até mim e me ofereceu um balaio de palha enfeitado com penas de um verde luminoso e cheio de sementes. "Para que se lembre que, em todo tempo, a fartura só vem após o plantio e a colheita", me disse ele enquanto o balaio se transmutava também em luz.


E veio até mim a mulher que irradiava uma luz azul prateada e me ofereceu as mãos cheias de pérolas dizendo: "Para que se lembre, em cada dia do novo ano, de transformar a areia que atrita e incomoda em tesouro."


E também a outra, com lírios nos cabelos, trazendo as mãos em conchas, cheias d'água. Água que ela me ofereceu e que eu tentei em vão reter em minhas próprias mãos quando ela a deixou escorrer das delas. Água que, ao tocar minha pele, com seu brilho amarelo, refrescou minha alma e sumiu... E ela disse: "Para que se lembre que o rio sempre desvia dos obstáculos, cava seu próprio leito e faz seu caminho rumo a seu destino."


E então me veio a mulher mais velha. Uma senhora cujas rugas contavam histórias de tempos imemoriais. E sorriu e me deu uma linda flor que irradiava uma luz lilás. Uma flor-de-lótus. E que também se desfez ao meu toque, deixando no ar um perfume doce. E ela me disse com sua voz calma: "Para você lembrar que a beleza também brota da lama. Basta ter paciência...".


E eles vinham e me davam seus "presentes" e ali, naquele momento, eu era uma criança que se encantava mais com a descoberta do presente, com o ato de “desembrulhar” do que com o presente em si, pois esses eram dádivas que iam além de minha compreensão.


Agora a mulher altiva e de gestos enérgicos me oferecia o leque com o qual graciosamente se abanava. E, mais uma vez, nem bem eu o toquei, e ele se desfez num vendaval de brilho laranja. "Para que se lembre que o mesmo vento que atiça e levanta o fogo é o mesmo que apaga as velas. Tudo é uma questão de intenção e intensidade...", ela disse antes de voltar ao seu lugar.


Parado a minha frente agora estava um homem segurando uma balança dourada em perfeito equilíbrio, me olhando fixa e profundamente nos olhos. Com um movimento firme, ele levou o instrumento à altura de meu rosto - percebi que, apesar do movimento, tão logo ele parou o braço, os pratos da balança imediatamente retomaram o equilíbrio - e o brilho âmbar ofuscou tudo a nossa volta. "Para que você lembre que a justiça mantém o equilíbrio e esse é lei maior no mundo...". E como os outros presentes, a balança também se desmaterializou ao tocar minhas mãos e seu brilho me cobriu dos pés à cabeça.


E eis que se aproximou um senhor tão velho quanto a mulher que me dera a flor-de-lótus. E ele me trouxe, num grande vaso de barro, pipoca. E com seus gestos marcados pelo tempo, o Velho fez chover sobre mim o milho estourado como pequenas flores brancas, enquanto dizia: "Para que se lembre que a transformação também é lei do mundo..." E antes de voltar para perto dos demais, deixou o alguidar de barro se espatifar no chão entre nós. E vi os cacos viraram pó e pó sumir no solo.


E o último dos presentes me foi trazido por um homem que vestia uma túnica tão branca que reluzia. Sua simples presença trazia a sensação do ar puro e da liberdade. Era a própria paz em forma humana. Seu presente era um cristal. Uma pedra tão transparente, que parecia ser “ar sólido”. Ao me entregar o cristal, apontando o arco-íris que se desenhava no ar depois que um feixe de luz o atravessava, me disse: “Para você lembrar que a paz se faz - e se refaz! - pela união harmônica das diferenças...”. E ao tocar minha mão, o cristal também se desfez em luzes coloridas...


E, de repente, o relógio soou. Era meia-noite. A hora grande, o término de um ciclo e o início de outro. Mais um ano se iniciava. Um novo ano... A Criança me abraçou novamente: “Feliz Ano Novo, tio!” e pulamos e rodamos e sorrimos enquanto os fogos estouravam no céu.


Ao paramos, os demais haviam sumido. Mas havia ainda duas figuras que nos olhavam e sorriam: um velho negro e um jovem índio. Eles chamaram a Criança e ela correu até eles sempre com a mesma alegria... O índio lhe entregou uma flor. E os três me olharam com ternura. A Criança veio até mim e me ofereceu a pequena flor branca. E disse com sua voz infantil: “É pra você lembrar que a gente vai estar junto o ano todo, todo ano, tio!” E ele correu para junto do velho e do índio, pegou a mão dos dois e juntos sumiram enquanto eu me perdia na beleza e na simplicidade daquela flor... A mais simples, mas mais linda que eu já havia visto em todo minha vida!


Feliz Ano Novo! Feliz Sempre!

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